Fui convidada a falar sobre ao significado e conquistas do ministério da mulher, e estarei abordando principalmente a ordenação de mulheres ao pastorado, por entender que a mulher conquista algo dentro da igreja, em termos de liderança, quando ela é reconhecida oficialmente e consegue romper as barreiras do poder.
Gostaria de dar uma pequena introdução falando que há cerca de 150 anos, o movimento de mulheres exerce pressão na igreja apelando para a necessidade de uma autocrítica, tomando em consideração as formas institucionais e ideológicas que perpetuam e legitimam concepções desiguais de homens e mulheres.
No séc. XIX, algumas mulheres começaram a almejar a ordenação. Nos Estados Unidos, formou-se uma Associação de mulheres pregadoras em 1919. Logo depois, em 1920 elas conquistaram o direito ao voto, e 10 anos depois no Brasil. Essa luta impulsionou mais ainda a da ordenação da mulher, mas também aumentou a resistência no movimento feminista, reafirmando sua posição de que a mulher realmente deve reconhecer seu lugar de submissão, inferioridade, objeto (não sujeito) da história, complementaridade e apoio.
MOVIMENTOS
Dois movimentos sobre a mulher na liderança:
TRADICIONALISTA
A mulher é igual ao homem diante de Deus, ( porém somente no sentido de valor humano), afirmando isto, a mulher não é cidadã de segunda classe na igreja, porém a liderança na igreja pertence ao homem.
Resposta:
• Se a mulher é igual ao homem diante de Deus, por que somente o homem tem acesso exclusivo a posições de liderança na igreja, baseados somente na questão de gênero?
• Quais as implicações éticas, sociais e teológicas que surgem de nossa igualdade humana de valor diante de Deus?
CONCLUSÃO:
Ao reservar as posições de liderança para os homens, os tradicionalistas negam às mulheres a oportunidade de demonstrar sua igualdade de habilidade e maturidade, e ainda mais de ganhar igualdade de status e um valor social adequados às suas características individuais.
O reino de Deus não deixa espaço para uma autoridade absoluta e totalitária de uma pessoa sobre a outra, onde um fica no lugar de Deus pela outra.
IGUALITÁRIO
Homens e mulheres igualmente prestam contas diretamente a Deus e ambos escutam diretamente de Deus. Ministerialmente não há distinção entre homem e mulher.
EVOLUÇÃO DA MULHER NA LIDERANÇA NOS ESTADOS UNIDOS
- 1890 = 7% das denominações
- 1900 = 25%
- NOVE denominações autorizaram ordenação de mulheres nos últimos 20 anos do século XIX.
- 1970 = mais denominações ordenando do que em qualquer outra década nos últimos 140 anos.
- (Sete das maiores denominações americanas iniciaram o processo de ordenação de mulheres)
NO BRASIL
- 1922 = Desde 1922 o Exército da Salvação, fundado por William Booth com sua esposa, Katherine Booth, ordena mulheres ao pastorado.
- 1958 = A Igreja Quadrangular, fundada por uma mulher, AimeeSample Mcpherson, começou a ordenar mulheres ao pastorado no Brasil.
- 1970 = As Igrejas Metodista e Luterana (Bis Estados Unidos, a Igreja Metodista já ordenava mulheres desde 1866). Interessante ressaltar que embora a igreja Metodista ordene mulheres ao pastorado desde 1970, somente em 2002 ordenou sua primeira Bispa – Maria Coutinho.
- 1971 = A Igreja Anglicana
- 1993 = A Igreja As. De Deus Betesda
- 1999 = A Igreja Presbiteriana Independente do Brasil.
- 2005 = A Igreja As. De Deus do Ministério de Madureira, ordenou sua primeira mulher a pastora: a cantora Cassiane (o pastor declarou, ao ordenar o marido dela, que sentiu que era a hora de Deus de ordenar mulheres pastoras, e ordenaria a cantora Cassiane, por seu trabalho na obra do Senhor, ordenando-a naquela mesma hora – vale ressaltar que a igreja vinha estudando sobre a biblicidade ou não da ordenação feminina).
PARALELO COM O MERCADO DE TRABALHO E EDUCAÇÃOA LUTA CONTINOU:
A luta pela igualdade da mulher estendeu-se paralelamente à entrada da mulher na educação e no mercado de trabalho.
MERCADO DE TRABALHO
- 1920 = 27.4%
- 1991 = 57.3% (mercado de trabalho)
EDUCAÇÃO
- 1900 = 35% da população universitária; 6% = doutorado
- 1991 = 55% da população universitária, 37% com doutorado. (Ferree e Hess. 1994:7).
Contudo, no início da década de 70, 62% da população americana adulta postulava que as mulheres deveriam tomar conta de seus lares e deixar de correr atrás dos homens para competir com eles. 74% afirmou que votaria em uma mulher para presidente se tivesse a qualificação necessária para o exercício da função e 65% aprovava a mulher casada trabalhar fora, mesmo que seu marido conseguisse sustentá-la sozinha.
PROIBIÇÃO DE MULHERES ORDENADAS
Embora se afirme que a inclusão das mulheres na liderança se deu mais após a década de 70, paralelamente com outras lutas das mulheres na sociedade, devemos ressaltar que a EXCLUSÃO das mulheres como líderes na Igreja, deu-se após a institucionalização de cada denominação (Chaves, 1994:47), isto é, ao ocorrer a masculinização do poder.
Nos Estados Unidos, esses conflitos sobre a ordenação de mulheres se iniciaram com maior intensidade em 1880, metade do séc. XIX, já tendo um início muito insignificante em 1830.
A primeira mulher ordenada a pastora nos Estados Unidos, foi na Igreja Congregacional em 1853- seu nome era Antoinette Brown.
Na África, Jarena Lee pediu permissão para ser ordenada em 1809, na Igreja
Episcopal Metodista. Desde 1840 que as mulheres pregavam nessa denominação. As mulheres foram negadas o direito de ordenação em 1844, 1848 e 1852. Finalmente, em 1884, a denominação decidiu lhes dar a licença para pregar, quando elas já prega vam e duas já pastoreavam suas próprias congregações.
TRÊS FENÔMENOS:
Três fenômenos podem explicar a exclusão das mulheres na igreja a partir de uma certa época.
- Na institucionalização das igrejas. (muitas mulheres já eram ordenadas, e tiveram suas licenças cassadas e as outras barradas. Ex. a própria igreja Congregacional, igreja Batista e outras).
- Exercem mesmas funções que os homens (apesar da proibição sobre ordenação). Mesmo com regras restritas sobre a ordenação de mulheres, elas mesmo assim ainda exercem muitas das mesmas funções que os homens.
- Embora denominações acreditem oficialmente na igualdade de gênero,as mulheres ainda enfrentam muitos obstáculos para exercer seu ministério em paridade com o clero masculino.
GRUPOS RESISTENTES Á ORDENAÇÃO DE MULHERES
- As que praticam rituais sacramentais: Católica, Episcopal, Ortodoxa, Luterana.
- As que advogam a inerrância das Escrituras: Associação dos Batistas Conservadores, Presbiteriana.
MOTIVOS
Resistência mais ampla ao mundo liberal, resistência central à identidade coletiva.
- Vejo aí uma incoerência: pois, as mulheres são atuantes no campo missionário havendo uma disjunção entre o oficializado na igreja e a prática.
MULHER CONQUISTANDO ESPAÇO
- Igrejas pentecostais e neo-pentecostais
MOTIVOS
Diálogo entre as tradições, os textos bíblicos e seus contextos.
- Rápido crescimento; Maior facilidade em se adaptar a mudanças por não terem raízes históricas muito antigas, tradições menos arraigadas.
BARREIRAS E POSSIBILIDADES
- Resistência à liderança da mulher por parte de um submundo institucional organizado ao redor de uma autoridade religiosa – ao gênero – rejeição a toda uma linha de pensamento.
- Possibilidades a partir de uma mentalidade transformadora de padrões e valores dentro da igreja. Repensar exegeses distorcidas.
Não terei tempo de falar aqui sobre as exegeses, porém trouxe um texto que considero extremamente pueril, desagradável e sem nenhum fundamento mais forte, de um pastor Batista Regular. Se alguém quiser fotocopiar, fique à vontade.
O título é: SÓ FALTAVA ESSA! MULHERES PASTORAS....
Subtítulo: O espírito de Jezabel dominando os frouxos em mais uma apostasia rebelde dos últimos tempos.
Os argumentos que ele usa contra, de uma maneira sarcástica, jocosa e totalmente agressiva, são exatamente os mais usados, e que foram detalhadamente estudados e debatidos na minha dissertação do mestrado.
Só para dar alguns exemplos:
“A mulher que cobiça o púlpito, em primeiro lugar, se torna rebelde contra Deus, contra a Palavra de Deus, contra a liderança da figura masculina, contra a autoridade do seu marido, assumindo inevitavelmente uma atitude masculinizada e começa a se transformar paulatinamente num monstro andrógino. E isso é uma acintosa abominação, começa a se vestir como homem, agir como homem, etc. etc. O marido que concorda com a insanidade de sua esposa se torna um PALERMA MANSO, ou VIVERÁ EM CONTÍNUO CONFLITO COM ELA desaguando em separação, desarmonia continuada, etc.
Em um dos momentos ele explica: “note a palavra andro = homem, MACHO”.
Diz que o homem tem que ser marido de uma só mulher, não MARIDA, e exemplifica vários casos de mulheres pastoras que são ou se tornaram LÉSBICAS.
Bom, vocês tirem suas próprias conclusões.
CONCLUSÃO:
Gostaria de concluir, lendo um texto tirado do livro All Power you need, de Vernon J. Gosden (1977:39).
TODO PODER QUE VOCÊ PRECISA
Nós homens, somos o sexo mais forte-
Sempre foi assim!
Enviamos nossos presentes aos campos missionários, para os quais as mulheres vão!
Enquanto as mulheres bravamente desbravam caminhos pelas florestas mais profundas,
Nós homens que somos o sexo mais forte,
Oramos ao lado de nossas camas.
Enquanto as mulheres partem para o exterior
A alcançar as almas sem Deus,
Nós homens, que somos o sexo mais forte,
ficamos em casa e oramos.
Enquanto as mulheres em cabanas enfrentam as moscas e o calor, Nós homens, que somos o sexo mais forte,somente escrevemos e de longe as encorajamos.
Ó homens valentes – continuemos dormindo
E descansando nossas cabeças pesadas,
Não seremos o sexo mais forte
Se negligenciarmos nossas camas!
(Autor desconhecido)
Extraído do livro – All Power You need: Vernon J. Gosden. (1977:39)
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