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Abrão Slavutzky (Psicanalista)
A palavra deve ser a prioridade para a recuperação de uma sociedade pensante. É preciso recordar como o mundo mudou a partir da Bíblia e da Grécia quando as palavras passaram a ser ou sagradas ou objeto de estudo na filosofia. Com elas se faz o fogo que nos aquece e as pontes que nos unem com fios invisíveis. As palavras são estímulos indispensáveis para enfrentar as tristezas do mundo, essenciais no amor e na paz. O poder das palavras salvou a Sherazade que contando histórias curou o rei de sua fúria assassina nas Mil e uma noites. E não é por acaso que os fanatismos temem a liberdade de expressão.
É preciso aprender também que as palavras podem ser vazias, mentirosas e superficiais. Mas mesmo estas quando reconhecidas, nos ensinam a descobrir seus diferentes sentidos. Existem palavras significantes, as que significam tantas coisas diferentes, como a palavra confiança. Em quem podemos confiar, a quem dar fiança neste mundo desconfiado, é uma arte que obriga a escutar com três orelhas.
Na peça Hamlet, o príncipe pergunta a seus velhos amigos se sabiam tocar flautas e eles dizem que não. Então ironiza dizendo que como queriam tocar sua alma se nem flautas sabiam tocar. As palavras dos escritores são terapêuticas para eles e para nós leitores, melhor que remédios, pois acalmam. O desafio não é só de quem fala, mas de quem ouve, a palavra é metade de quem a pronuncia e metade de quem a escuta, escreveu Montaigne.
Uma das maiores descobertas feitas sobre o ser humano foi o misterioso inconsciente. Ele escapa à consciência e ao controle. Exemplos são os sonhos noturnos, e a piada! A piada é quase esquecida pela psicanálise, apesar de ser o modelo do funcionamento da realidade psíquica. É nesta que se pode perceber como uma palavra tem o poder de despertar o riso. Rimos porque algo do inconsciente, erótico ou agressivo, vem à tona desencadeado pelo final da piada. Uma palavra engraçada movimenta os músculos da face, uma sedutora produz emoções e uma malvada diminui a auto-estima.
Em Buenos Aires tive um paciente idoso que sabia ferir com comentários críticos. No início, me assustei, mas com o tempo fui aprendendo que as palavras duras também ensinam; elas cortam e quantos de nós já cortamos o outro com dizeres agressivos? Às vezes, penso que deveria procurar uma a uma as pessoas que disse o que não devia e pedir desculpas. Em compensação, que felicidade sentimos ao descobrir a palavra certa que conforta.
Algumas palavras são fortes como a morte. Por isso, escolher as palavras adequadas é um exercício que envolve conhecimento e responsabilidade. É melhor as leves que as pesadas, as doces que as amargas, as ardentes que as frias. Não se pode tocá-las, mas elas tocam, fazem rir e chorar, aliviam a dor quando podem sair ao encontrar uma orelha amiga. Ao recordar uma frase que conforta, a vida se transforma, o desanimado se anima, a felicidade sorri. Finalmente um brinde às boas palavras, elas merecem!
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