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Comunicação Com o Adolescente PDF Imprimir E-mail
Artigos por Temas - Familia
Escrito por Silvia Geruza   
Sex, 03 de Outubro de 2008 14:32


Adolescência


“A adolescência é hoje considerada uma etapa do desenvolvimento humano, que pressupõe a passagem de uma situação de dependência infantil para a inserção social e a formação de um sistema de valores que definem a idade adulta”, Daniel Sampaio (2001).


Sampaio (2001) reforça que a adolescência prende-se com as questões fundamentais da identidade e autonomia. Na formação da identidade o outro é muito importante, as experiências sociais são essenciais (grupo de jovens, família, comunidade, sociedade). Com a procura de autonomia o jovem tenta obter o seu espaço, físico e mental, abandonando a posição de dependência face aos pais, com um período necessário de desobediência ou confronto com os mesmos (sem que seja necessariamente um período de crise). O atingir da autonomia depende quer da capacidade dos pais em estimular a separação, quer da qualidade do vínculo entre pais e adolescentes que permite o início de um processo de separação com segurança e confiança mútua. A adolescência é também um período de expressão narcísica, ou seja, o adolescente faz um investimento em si próprio, tão necessário face à perda da proteção dos pais. A maioria dos adolescentes passa a adolescência com alguns sobressaltos, mas sem grandes modificações.


Sampaio (2001) lembra aos pais que não basta apenas recordar os seus tempos de adolescentes, porque os tempos mudaram imenso. Na maioria das vezes, os pais foram educados através de modelos muito rígidos, nos quais não tinham espaço para exprimirem opiniões, e agora se confrontam com jovens que os metem em causa e fazem exigências. No tempo dos pais, provavelmente não se falava de temas difíceis, não se tinha medo da droga, do sexo, do crime. Mas, atualmente, os jovens são também mais capazes de discutir tudo e de enfrentar os problemas.

Os pais não devem, por outro lado, anular a sua própria identidade e quebrar a tão saudável separação entre gerações. É importante que numa família existam opiniões diferentes e confrontos de idéias, no entanto é essencial que discutam as diferentes opções e negociem o bem-estar na família. Não se devem inverter os papéis ou as hierarquias, quem manda são os pais, que devem exercer sempre a sua autoridade, embora com flexibilidade. O papel do jovem é contestar, inovar, enquanto o papel dos pais é impor limites, esclarecer. O mais importante é que todos possam ser ouvidos, que cada um fale por si e tenhas as suas próprias idéias.


Na opinião do autor, normalmente apenas se instala uma crise durante o período da adolescência de um filho, se existir um falso equilíbrio familiar, pois o adolescente contata com o mundo exterior e traz para casa a inovação e o desafio e os pais tornam mais rígidas as regras por se confrontarem finalmente com esse falso equilíbrio, que assim é descoberto.


Outro aspecto importante na adolescência que o autor foca é o fato de que, numa família, todos devem ter papéis diferentes e não fazerem todos o mesmo, cada um necessita de ter o seu espaço individual, incluindo o adolescente. O que mais custa aos pais é perceber que o filho deixa de lhes pertencer, passa a “pertencer” mais aos namorados, aos amigos, aos concertos musicais ou ao futebol. Os pais sentem o seu poder a diminuir, sentem que o seu papel é menos importante, mas devem compreender que é apenas uma nova etapa da vida, na qual a sua presença é tanto ou mais necessária na vida do jovem. Pelo fato de os filhos investirem fora da família, isso não tira o lugar aos pais. Nesta fase os pais são muito importantes, devendo apenas mudar a forma como a sua presença influencia a vida dos filhos, devem estar atentos, apoiar os fracassos, incentivar os êxitos e respeitar o espaço individual dos filhos. Deixar o filho viver a sua própria experiência de autonomia com regras, mais tarde haverá o retorno à família, já como ser individualizado e autônomo.


Segundo Sampaio (2001), nada é mais triste para um adolescente que não pertencer a qualquer grupo, ficando sozinho a maior parte do tempo. O não viver as mesmas coisas que os outros adolescentes faz com que não tenha nada para conversar com eles. Na escola o estudo é importante, mas não é tudo. O adolescente precisa ir ganhando autonomia para pensar sozinho, quer através da mudança na relação com os pais, quer com a relação com os amigos, atingindo a identidade própria através da experiência. É essencial que se tornem independentes da família e que vivam os valores dos seus pares. A escola é um local onde se estuda, mas também onde se aprende a viver. É igualmente saudável os adolescentes poderem ter uma noite para eles, na qual possam estar com os amigos, chegar tarde, esvaziar a cabeça das aulas, sentirem-se livres e inseridos no grupo. As relações afetivas (incluindo namoros) fazem parte do percurso normal da adolescência e devem ser respeitadas. Deve ser igualmente respeitada a intimidade de cada um na família, percebendo que há coisas que não se perguntam aos filhos, que é natural que o adolescente possa ter a porta do quarto fechada, respeitar a sua privacidade, o seu correio, os telefonemas, o seu espaço e os seus segredos. Por outro lado, o adolescente também deve ser educado a respeitar a privacidade dos pais e dos outros, embora debatendo os temas livremente e com respeito.


É importante existir uma negociação das regras familiares, impedindo os insultos. Sampaio (2001) reforça que ninguém muda e evolui se estiver constantemente a ouvir que é péssimo. É importante mostrar ao adolescente o que ele tem de bom, tentando perceber com ele o que faz de mal (explicando porque fez mal, tentando perceber o porquê e ouvindo-o). O não ralhar constantemente não significa não expor os pontos de vista diferentes num ambiente de afeto e confiança mútuos. Os adolescentes precisam ouvir os pais, saber que existem perigos reais. Os pais não precisam dizer logo não, nem rapidamente sim, devem analisar juntos o pedido. As saídas devem ser negociadas, conversar sobre com quem os filhos vão sair, para onde, como vão. É um alertar para os perigos, mas reforçando a confiança que têm nos filhos, sugerir que é melhor saírem em grupo, que telefonem se precisarem de alguma coisa. É natural que os adolescentes provoquem, estão a testar os seus limites, os pais devem dar luta, sem desprezar a provocação, mas com calma, sem perderem os argumentos e sem se enervarem. Os pais não se devem desautorizar um ao outro em frente aos filhos, mas devem admitir aos filhos quando erram.


Segundo o autor, existem momentos importantes, por vezes imperceptíveis aos pais, que indicam a entrada na adolescência, como o querer ficar pela primeira vez em casa sozinho. Não querer vestir aquela roupa que a mãe comprou. Não gostar que a mãe o beije em público, quando critica a roupa do pai, quando comenta o telejornal, quando propõe outras hipóteses para as férias, quando anuncia um namoro, etc. É importante que os pais mostrem ao adolescente que repararam nesta pequena mudança, que o ouçam e conversem com ele, não discutindo, impedindo que o diálogo cesse na família.


Sampaio (2001) afirma que quando um adolescente é levado a um psicólogo, algures no tempo o diálogo familiar cessou, não é só o adolescente que não está bem, mas o conjunto familiar, os papéis de cada um, as expectativas, as regras e a comunicação na família. Numa família com adolescentes é fundamental que não exista mentira ou dissimulação. É fundamental que os próprios pais estejam bem consigo próprios, resolvendo primeiro os seus próprios problemas.


O autor defende que os jovens têm o direito de não serem idealizados pelos pais, de serem ouvidos e terem oportunidade de colocar em prática as suas idéias, mas sem terem razão a priori. Daniel Sampaio finaliza com uma afirmação importantíssima, a família não deve se reger unicamente e linearmente pela psicologia, “cada família inventará diariamente a sua maneira de viver”.