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Minha Mãe Guió, Minha Guerreira PDF Imprimir E-mail
Artigos por Temas - Familia
Escrito por Silvia Geruza   
Sex, 03 de Outubro de 2008 15:38

 

Hoje você completaria 91 anos, porém em Outubro do ano passado você se retirou para estar junto ao Pai. Creio que lhe devo um tributo pela grande mulher que você foi.

Desde pequena batalhou para se sobressair em uma família de seis. Como a quase mais nova conseguiu ser a predileta do papai, que não foi de muita vantagem na hora de casar. Proibida de casar com um brasileiro, conseguiu se impor fugindo e seguir seu sonho. Triste constatar que casar com meu pai não realizaria o sonho de nenhuma mulher, muito menos o seu. Logo na lua de mel seu marido a traiu e transmitiu doenças. Como uma boa guerreira, não desistiu de se relacionar com aquele homem por quem deixara pai, mãe, herança, tudo para trás.

Sim, você constituiu família e teve seis filhos em casa. Sustentou seus filhos com o suor do seu rosto enquanto seu marido brincava com as mais diversas mulheres e ainda por cima roubava seu dinheiro para gastar em jogo e com mulheres. Não se separou para não ter filhos estigmatizados como "filhos de pais separados". Cada filho que você levou ao médico suscitou a mesma pergunta: "é filho único?" tal seu cuidado e zelo para com todos eles.

Conseguiu com seu trabalho incansável romper com paradigmas da mulher dona de casa e mãe, cuidando, provendo, amando e sofrendo.

A generosidade sempre bateu à porta daqueles que se relacionaram com você. Aprendi com você o hábito da honestidade, integridade e honradez apesar das circunstâncias difíceis. Dormir sob o embalo do seu canto diário, acordar com mingau na cama até os seis anos; aprender a dançar em cima dos seus pés desde pequena, deu-me uma boa dose de carinho, amor e eletricidade. Sua permissão em passar férias com meus tios e primos em fazendas cavalgando, pescando, brincando de índios e caubóis, fizeram de mim uma tom boy emancipada.

Assumir responsabilidade pela família desde 15 anos me incentivaram a estudar, trabalhar, lutar também por uma melhor qualidade de vida. Ter você como minha conselheira diária ao chegar do trabalho fez de mim uma pessoa comunicativa.

Ainda lembro com saudades quando chegava do estágio às onze da noite, e você já estava com um banco no banheiro para conversarmos enquanto eu tomava banho.  Lembro com carinho das nossas poucas horas de  conversa com meu prato na mesa com um jogo americano, e você sentada do outro lado da mesa para me fazer companhia. Depois, íamos dormir. Lembro do tempo quando você dormia no meu quarto, e como trocávamos dos móveis da sala toda vez que eu mudava de namorado. E como mudei de namorados, não é mãezinha. Seu cuidado com todos os filhos foi incansável.

Também não posso esquecer de suas disciplinas e punições. Suas surras nos filhos eram homéricas. Sim, você nos disciplinava, e quando começava com o mais velho, sempre terminava no mais novo. Palavrões dentro de casa eram impensáveis. Porém, com isso você nos ensinou limites, respeito e confiança.

Sua alegria sempre foi contagiante. Grande piadista, alegre o tempo todo, apesar das traições, das privações. Você sempre foi uma profissional admirada e respeitada por seus clientes, e a alegria de qualquer ambiente no qual se encontrava.

Minha guerreira, o que dizer para te homenagear no seu dia especial? Faltam-me palavras para lhe descrever a ponto de levantar admiração daqueles que não tiveram o privilégio de lhe conhecer de perto. Deixo aqui minha gratidão por sua vida honrada e incansável, certa de que você cumpriu a sua missão aqui na terra: a de espalhar, amor, carinho, dedicação, generosidade e incentivo a todos que se relacionaram com você, e sem mencionar o fato de me ter dado o dom mais precioso: o da vida.

Obrigada mãezinha por ter existido e vivido tão belamente. Descanse em paz, passeando com seu Deus, brincando, rindo, e espalhando seu amor a todos que estiverem com você.

Sempre te amei muito e continuo te amando pelo que você é e representou na minha vida. Você continua sendo minha inspiração, e quando eu crescer, mãezinha, quero ser igualzinha a você.

De sua filha,
Silvinha