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O Adolescente PDF Imprimir E-mail
Artigos por Temas - Familia
Escrito por Silvia Geruza   
Ter, 07 de Outubro de 2008 09:32

 

(André Comte-Sponville)[1]

 

Depois da criança, há o adolescente. É a mais bela idade, pelo menos aos meus olhos, a mais cativante, a mais perturbadora, a mais perturbada também, e isso dá a ela um encanto a mais.

Não se sabe exatamente quando começa e quando termina. É mais um processo que um estado. Geralmente começa entre 12/13 anos para as meninas, 13/14 anos para os meninos (os “pré-adolescentes”), e termina lá pelos 20 (os jovens adultos). A puberdade, que se estende por vários anos, serve de ponto de referência ou de báscula, sem que se possa, contudo reduzir a adolescência a uma simples transformação fisiológica. Mesmo assim, que transformação!

 

O desenvolvimento dos órgãos genitais, o aparecimento dos caracteres sexuais secundários (os seios que se desenvolvem nas meninas, a voz que muda nos meninos), a fecundidade que se instala, o crescimento que se acelera, o corpo inteiro que se modifica... Por muito menos já ficaríamos desestabilizados. Mas há também a relação com os pais, que já não é a mesma, a relação com os amigos, a relação com a sexualidade, a relação consigo mesmo e com o mundo...

Você se questiona, se procura, se opõe. É a idade dos contrastes, das contradições, dos conflitos, inclusive internos. Tudo se mistura. Narcisismo e generosidade, exaltação e melancolia, conformismo e revolta, solidão e espírito de grupo, timidez e excentricidade, sede de absoluto e de reconhecimento...

 

Como a vida é difícil, incerta, hesitante! Você já não é criança, ainda não é adulto. Você não é, torna-se. Acampa provisoriamente no provisório, na impermanência, no inacabado. É a única eternidade verdadeira. Você ainda não sabe disso. Gostaria de parar. Gostaria de avançar. Procura o próprio caminho do jeito que dá, entre a família e os amigos, entre o já não e o ainda não, como em trânsito no eterno vir-a-ser. Não finge ter chegado. Finge um pouco ser você mesmo, é bem preciso (se não, como vir a sê-lo?), mas sem acreditar totalmente nisso. Tudo é mais trágico que sério. Com 17 anos, não somos frívolos, somos impacientes, estamos cansados. Os pais dizem que é o crescimento, os estudos, as noitadas longas demais, as noites curtas demais... Mas é sobretudo porque a vida é cansativa, chata, decepcionante,porque ainda nos falta treino ou resignação., Entediamo-nos muito. Estamos cheios de desejos e inquietações. Não somos felizes. E gostamos bastante disso.

 

“A melancolia”, dizia Hugo, “é a felicidade de estar triste.”. Essa felicidade se parece com a adolescência, que é a idade romântica por excelência (a única idade, diria eu, em que o romantismo é outra coisa que não mentira ou bobagem). Você odeia sua família, a sociedade, a terra inteira. Prefere seus sonhos. Prefere seus ideais. É a idade das grandes revoltas, das grandes raivas, dos grandes desesperos (o suicídio é, entre os adolescentes, a segunda causa de mortes, logo depois dos acidentes automobilísticos), dos grandes sentimentos, dos grandes ódios. Você se firma opondo-se. É o espírito da adolescência, que sempre nega, e talvez seja o próprio espírito. Azar dos pais. Sorte da humanidade.

 

“Quando são pequenas”, escrevia Oscar Wilde, “as crianças gostam dos pais. Mais tarde, julgam-nos. Às vezes, elas os perdoam.” A adolescência é a hora desse julgamento; a maturidade, desse perdão. Mas não avancemos rápido demais. Primeiro, é preciso julgar, condenar, queimar o que adoramos, matar o pai, ferir a mãe, partir os ídolos e os simulacros, transgredir os tabus e os interditos. Como eu dizia, não nascemos livres, tornamo-nos livres. A adolescência é o momento desse tornar-se e dessa libertação. Isso dói. Isso causa medo. Isso faz bem. Você não sabe onde está. Não sabe para onde vai. Sabe menos o que quer do que o que recusa, menos o que espera do que o que teme. Ainda bem que existem os amigos, as amigas, a música, a solidão! Ainda bem que existem o colégio e as férias! Entediamo-nos nos dois. Aprendemos nos dois. Ainda bem que existem os livros – para aqueles que ainda lêem – e o cinema! Ainda bem que o tempo p assa e dane-se se ele nos leva! Não suportamos esperar. Queremos viver no presente e não sabemos. Estamos no começo de tudo, exceto da infância. Somos só um esboço; ainda não sabemos que esse esboço é uma espécie de perfeição, talvez a única que nos será dada, quase sempre aquela que mais se parecerá conosco, que nunca mais deixará de nos acompanhar, de nos julgar, de nos envergonhar às vezes. Somos imaturos. Exigentes. Estamos cheios de entusiasmo e de severidade. Cheios de rigor e de mais ou menos. Cheios de ingenuidade e de desespero. Somos jovens. Grandes. Enchemos o saco deles. Ai! Como a vida é lenta, e como passa depressa! (...) Quase todos, contudo, são mais belos do que acham e do que serão mais tarde. Beleza do diabo ou do anjo, ainda mais impressionante para os adultos, mais atraente, mais perturbadora, por ser os dois ao mesmo tempo... Mas os adolescentes não sabem disso, ou só sabem por ouvir dizer. A juventude só é um milagre para os velhos.

 

(...) Uma moça e uma garota, um jovem e um adolescente não são a mesma coisa. Os primeiros começaram a envelhecer. Os segundos ainda não terminaram de crescer completamente. Aqueles estão no mundo dos adultos. Estes se preparam para entrar nele, lentamente, dificilmente, sem acreditar totalmente nele.

 

Como não teriam um pouco de medo?Gostaríamos de lhes transmitir segurança. A verdade é que não sabemos se devemos invejá-los ou sentir pena deles. Então falamos de outra coisa. A adolescência desestimula a conversa e a incita. É a idade dos segredos, das confidências, dos sonhos inconfessáveis... adultos não têm acesso a eles, e é bom que seja assim. A infância é um milagre e uma catástrofe. A adolescência, um mistério e uma promessa. Mas só será possível cumpri-la mais tarde.

 


[1] André Comte-Sponville, A vida humana, pp 35-38.