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Artigos por Temas - Familia
Escrito por Silvia Geruza   
Ter, 07 de Outubro de 2008 09:48

 

Hoje você completa 90 anos!

E eu longe de você

Gostaria muito de poder estar aí

E sussurrar no seu ouvido baixinho,

Ou em alto som do alto de um microfone

Pra muita gente ouvir

O quanto te amo e admiro!

Hoje amanheci nostálgica

Lembrando dos tempos em que fingia

Ter piolhos, só para deitar a cabeça no seu colo

E a senhora, mesmo sabendo que eu fingia

Ficava horas a finco dedilhando nos meus cabelos

Até me fazer dormir.

Ah, mãezinha, como eu queria estar perto

Da senhora hoje para poder estar no seu colo

E poder dormir com seus gostosos cafunés!

Embora eu lhe admire muito,

Tenho uma notícia triste para lhe dar:

Não consegui lhe imitar em muitas coisas:

Pois é:

 

  • Sou uma péssima cozinheira

Não consigo nem fazer uma tapioca daquelas

Gostosas que a senhora nos preparava diariamente às cinco da tarde

E no café da manhã.

E aquele cuscuz gostoso regado a calda de coco e manteiga?

Não sei nem por onde vai para fazê-lo mãe.

 

  • Não consegui aprender a costurar, mesmo

Depois de lhe observar tantas vezes olhando uma vitrine e

Logo depois fazer um vestido igualzinho sem nem mesmo desenhá-lo

Nem depois de sentar tantas vezes ao seu lado esperando você

Terminar de fazer um vestido para me bater depois no fim do dia.

Não prego nem um botão hoje, mãe.

 

  • Infelizmente, não sou hábil com as mãos. Não sei fazer suas lindas

Peças de tricô, nem crochê,nem bordar, nem aquelas lindas rosas de seda

Que a senhora fazia, lembra?

 

  • Não sou afinada. Não sei cantar com sua voz afinada e bonita aquelas músicas de Carlos Gardel,

nem as de Vicente Celestino, ou Francisco José.

Ah, uma coisa não foi legal mãezinha. De tanto ser embalada para dormir com aquela música

Onde o camponês arrancou o coração da mãe para provar seu amor à sua amada,

Me tornei uma romântica inveterada. Mas, mãezinha, por que a senhora não me falou

Que aquele tipo de amor não existia?

Para lhe falar a verdade, minha voz, de tanto dar palestras, ensinar, e FALAR,

Soa como a de um pato rouco. Não sei segurar nem um tom, nem de briga.

 

  • Mãezinha, não sei ler a Bíblia duas vezes ao ano como a senhora, nem cantar hinos espirituais,

Para lhe ser muito sincera, nem sei amar a Deus com a intensidade que a senhora amava e ama!

Tenho sido uma péssima imitadora sua, não é?

 

Mas, não fique triste, algumas coisas suas eu acho que herdei:

 

Sou tão tagarela quanto a senhora. Falo pelos cotovelos, é o que dizem.

Sou brincalhona como a senhora, que era uma piadista, lembra?

Pois é, tento fazer da vida uma grande piada também, e gosto muito de rir e brincar com quem conheço,

E mãezinha, acho que extrapolei: brinco com os caixas de supermercado, com as senhorinhas nos

Faróis por onde passo habitualmente com as pessoas que me atendem em restaurantes. Pois é,

Sua filha se transformou numa grande brincalhona.

Tenho a impressão de que lhe observar costurando 100 shorts por mês dos retalhos das roupas

De suas clientes para distribuir nas favelas Fizeram um impacto em mim.

Pois não é que hoje aplico terapia comunitária em comunidades carentes

E sou muito voltada para a obra social?

Lembra como a senhora era generosa com todos ao seu redor?

Tenho a impressão que observando sua atitude, estou tentando parecer com a senhora, porém

Em proporções bem menores, mas mãezinha, juro que estou tentando.

Ah, e esconder os netinhos atrás das barras da sua saia para eu não bater neles?

Ih, acho que estou fazendo igualzinho à senhora. Ando meio mole, os pequerruchos

Fazem de mim gato e sapato. Quebram minha câmera digital, meu celular, me manipulam.

Quebram até meu coração quando estão longe de mim.

Pois é, mãezinha, acho que consegui lhe imitar em muito pouca coisa,

Ah, lembra de quando eu saía com a Arminda da D., Joaquim e a senhora

Me recomendava para não pegar bala nenhuma escondido na Lobrás?

Única loja na cidade com escada rolante onde eu gostava de passear

Diariamente para ficar subindo e descendo o dia inteirinho?

Pois é, isso ficou gravado na minha mente. E, herdei sim, sua honestidade

Viu mãezinha.

Não se preocupe, sua filha continua sem pegar balas escondido nas lojas

E nada de ninguém, na honestidade e integridade consegui te imitar,

Não tanto quanto a senhora, mas tento mãezinha, juro que tento.

Minha querida, vou te deixar ir, pois como você, sou viciada em trabalho.

Tenho que partir para minha jornada diária. Que bom que a senhora trabalhava

Em casa com sua máquina de costura e até nos castigos estávamos juntos da senhora.

Na cidade maluca onde moro, sempre levo uma hora a uma hora e meia para chegar

No meu local de trabalho. O trânsito é maluco, mãe. A senhora não iria acreditar

Se visse.

O mundo enlouqueceu mãezinha. Enchentes na índia, pontes caindo em países

Avançados. Aviões caindo no nosso Brasil. Roubos, assaltos, traficantes com

Mais poder do que a polícia. Uma loucura.

Olha, quando a senhora estiver cansada e quiser partir. Vá em paz, porque

Tenho certeza de que bem antes da senhora chegar no céu, Deus correrá

Para lhe alcançar com um abraço, um sorriso e dirá:

Vem, filha minha, entra para o descanso do Teu Pai.

E, olha, quando você chegar lá, fica bem mais amiga dele

Para que quando eu chegar, se eu conseguir,

Ele deixar eu ficar bem pertinho de você

Porque mãezinha, eu não quero nunca mais

Morar longe de você, e quero ficar com

Minha cabeça no seu colo quentinho, para sempre!

Te amo minha guerreira arretada.

Um beijo bem apertado nas suas bochechas

Branquinhas, fofas e macias, que nunca viram uma espinha!

De sua filha tagarela e doidinha,