| Ser Pai ou Não Ser, eis a questão |
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| Programas - Rádio Musical FM | |||
| Qua, 20 de Maio de 2009 23:37 | |||
![]() Por Silvia Geruza Ser pai na atualidade tem sido bem diferente de dois séculos atrás. Até o século XVIII, os casais se uniam com objetivo único de constituir uma família. Constituir família significava um lar com um pai, uma mãe e vários filhos. Ter o maior número possível de filhos era o ideal, pois eles, idealmente, preservariam tanto os negócios da família, como seus genes, enfim podia significar que a família Fernandes, ou Távora, ou Smith, se perpetuaria através de gerações e gerações. Esperavam-se dos filhos ajuda na lavoura ou nos negócios dos pais, isto é, que fossem produtivos. Contudo, cabia aos pais cuidar dos filhos, protegê-los, amá-los e treiná-los para uma vida saudável e produtiva. Para isto, principalmente a partir do século XIX, as mães tomavam conta dos filhos,instruíam, disciplinavam, enfim, preparavam-nos para a vida e a sociedade. Se bem ou mal, não nos cabe aqui julgar. A família não se constituía somente da nuclear, mas pais, avós, tios, tias, primos, todos poderiam habitar debaixo do mesmo teto sem grandes comoções. Asilo de velhos, ou lar de descanso não soava bem se mencionado dentro do lar, aliás, nem pesquisei para saber se existiam ou não, provavelmente não. Hoje a família além de mudar e muito de configuração, os objetivos de casar e de ter ou não filhos mudaram. Se antes se casava para constituir família, hoje é para "ser feliz", o que quer que seja que está inserido nesta frase. Casar não mais para ter filhos, aliás, mais e mais aumenta o número de casais que dizem não querer ter filhos. Alguns, sob a alegação de que não querem criar filhos neste mundo como se encontra. Outros, porque profissão não lhe daria tempo para se dedicar como gostariam aos filhos. Outros, com a desculpa de que ter filhos custa muito caro e não conseguiria sustentar um de maneira ideal. Contudo, a oferta de poder escolher o filho, ou a maneira de ter filhos, faz com que ter filhos passe a ser mais prazeroso. Pode-se hoje escolher um filho em um catálogo de doadores atraentes, a cor dos olhos, se atléticos ou não, com pais que tenham tido ou tenham uma saúde invejável, altura invejável, cor de pele invejável. Consome-se um filho como se compra mercadoria pelo correio, pela internet, ou através de revistas de moda. Segundo Bauman, vivemos em uma época em que um filho é, acima de tudo, um objeto de consumo emocional. Sim, porque expectativas de que sonhos não realizados pelos pais agora pairam sobre os filhos. Embora, ter filhos possa ser uma das aquisições mais caras que o consumidor médio pode fazer ao longo de toda sua vida. Além de não se poder ter certeza de como será seu investimento. O custo total pode crescer com o passar do tempo ou diminuir e dar lucros, dependendo da maneira que são educados e disciplinados. A boa notícia é que educar, disciplinar, ensinar bons princípios, transmitir valores éticos, ensinar a ter responsabilidade desde cedo, a ajudar dentro e fora de casa, pode lhe trazer dividendos de um pouco de paz quando estes crescerem. A má notícia é: nada disso lhe traz a certeza de que esses bebês fofinhos, doces, quando crianças recebam toda essa carga de trabalho duro para formar seu caráter, por algum motivo, lá na frente, não se tem garantia nenhuma de que ele trará o fruto que você esperou, e desejou toda sua vida. Como afirma Bauman, "Formar uma família é como pular de cabeça em águas inexploradas e de profundidade insondável." Ter filhos significa dedicar-se a outro que será ou não dependente a vida inteira. Significa também, para muitos, sacrificar suas ambições pessoais, para muitas mulheres, a carreira e a independência certamente serão sacrificadas, ou adiadas para "depois que as crianças crescerem", interessante, que para muitos eles nunca deixarão de ser "crianças". E assim, criam e educam pequenos seres dependentes, imaturos, superprotegidos que não conseguem alçar vôos. Obviamente, que em uma sociedade volátil e fútil como a do séc.XXI, palavras como disciplina, responsabilidade, ensinar, cuidar encontram-se fora de moda dentro dos lares. Os pais a cada dia mais querem se parecer com os filhos, incluindo nas vestimentas, e estes por sua vez encontram-se perdidos sem ter um referencial a quem se reportar, ou em quem se espelhar. Os pais estão adolescendo e os adolescentes se perdendo. Assim, os filhos crescem sem ajudar dentro de casa, sem hora para as refeições, sem disciplina no comer, no dormir, sem respeitar a hierarquia de pai e mãe, sem horários, e, consequentemente, sem vontade de trabalhar para casar, constituir família e continuar o ciclo da vida. Ser feliz é o mote moderno, nem que para isto implique em pular de galho em galho relacional, casar, deixar de se casar, separar-se uma, duas, três vezes, até que a "morte o separe do resto da vida", sem que, pobre coitado encontre a "felicidade" que tanto buscou.
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