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A Mulher Apaixonada PDF Imprimir E-mail
Programas - Rádio Musical FM
Escrito por Silvia Geruza   
Ter, 22 de Junho de 2010 16:50
amulherapaixonada

(Artur da Távola)

A mulher pode estar gostando, pode estar envolvida, pode estar a fim, pode estar impressionada. Em todos esses estados pode se relacionar amorosamente. Mas a mulher apaixonada está em outro astral. Tudo nela, principalmente certos mecanismos inaprisionáveis por palavras, fala de paixão. É um certo jeito de se acalmar dentro da nas glândulas da pele, no olho, na respiração.

A mulher apaixonada é um ser em estado de torcida do Flamengo. Torce mais pelo amado que pela Seleção. Entra no campo, agride o juiz, salta o alambrado, topa qualquer desafio. Só vê vitória. O único ser que topa qualquer parada não é o herói, o desesperado ou o valente: é a mulher apaixonada. Vai pro exílio, larga profissão, conveniência, partido político. Só tem um caminho e uma verdade: o amor. O resto virá depois. Sem ele, o tudo é nada.

A mulher apaixonada é o mais paciente dos seres impacientes. Sempre em estado de “estou pronta”, suporta anos esperando com maravilhosa impaciência, exigência, dedicação, entrega, cegueira, vontade de quintais e praias, as amarrações que supõe perfeitas e definitivas. Ninguém vive a provisoriedeade com tanto sentido de permanência. Ninguém assina em branco e antecipa tantos avais de afeto. Ninguém erra com tanta convicção e decência.

Fera e santa, guerreira e gato, desastrada e genial, capaz de usar fitas, meias coloridas, blusas-bobagem; uma campainha nos joelhos; uma joaninha de verdade na testa; de enfrentar solidõess, distâncias, presenças, piratas e furacões pelo ser amado, a mulher apaixonada é o mais regular dos seres irregulares, porque não julga, não pensa, não avalia, só sente. E que se danem o mundo, as regras as regulações, conveniências, aparências, seguranças, convenções, disposições,legislações e tudo aquilo que mamãe me ensinou! Que o mundo exploda em flores!

Ser de grandezas, só vive de migalhas. Ser de farturas, alimenta-se de ar, nuvem, vontade, espera e sonho. Quem se supõe apaixonada e trocar uma nuvem por um sanduiche está é com fome, não com paixão. Está doente de sa[ude e não saudável de doença de amor.

A mulher apaixonada é um ser em estado de entendimento de pedaços da vida desconhecidos pelo comum dos mortais: entende de lençóis iluminados pela luz do corredor nas noites sem sono, conhece ruídos diferentes de tique-taques, entende de meio-fio, de paredes chutadas, de cantores e poetas escolhidos secretamente, de confidências contadas para as toalhas.

Domina computadores afetivos encarregados de arquivar e interpretar as mensagens mais sutis do amado: tin de viz, espaço entre uma e outra frase, fomes dominicais, impressões vagas de cansaço, tédio, alegria ou saudade expressas por fungados, suspiros, desabafos, interjeições, gestos, sons, olhares, todos tabulados no seu “compoetador”, perfurado pela esperança e perfumado pela possibilidade.

A mulher apaixonada mistura bola de gude com Heidegger; borboleta com suco de pitanga; laquê com desejo; talão de pedágio com metafísica; sapato de tênis com Brahms; sanduíches de mortadela com informática; distração com rejeição; perturba-se de tanta lucidez; tolda-se de tanta nitidez; mancha-se de tanta pureza; confunde-se de tanto autoconhecimento; engana-se de tanta verdade; embaraça-se de tanta decisão; entedia-se de tanta disposição.

Ela mistura disposição com vontade. Possibilidade com ânsia.Dificuldade com não querer. Em suma: é o mais incapaz dos capazes do que há de melhor, mais lindo, legítimo e verdadeiro.

A mulher apaixonada vive de farol alto,não desliga a buzina, não fecha o bico de gás, só anda de pé na tábua, ouve tudo em 78 rotações, força a barra, anda na contramão, joga pedra no telhado do vizinho, vai depressa com o andor, desassossega o leão, cutuca a fera com vara curta, gasta pólvora COM CHIMANGO, PERDE TEMPO, GANHA O SONHO, VIVE O SUSTO, VARRE O MEDO, ENFRENTA A FROTA, ESMAGA O ESPANTO, ESBARRA NO AFAGO, ESPERA A VIDA, ENCONTRA A RAZÃO, fala de boca cheia, assovia e chupa cana, beija a madrugada, insulta a acomodação, instala o reino da validade.

Ela é: especialista em pretextos, modista de oportunidades, cozinheira de chances, pediatra de carências, jardineira d emanhãs, pastora de indícios, navegante de esperanças, fiandeira de frustrações, colhedeira de instantes, tecelã de ternuras, miúra de girassóeis, doceira de amarguras.

A mulher apaixonada é furacão e chuvisco, exaltação e placidez, adivinha e alienada, sábia e patusca, maravilha e susto, mãe e mulher, filha e bruxa, santa e desastrada. A mulher apaixonada é, em suma, o ser que atende e representa em profundidade, em delírio, em sofrimento e em glória, a criança carente que mora em nós.