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Relacionamento e Intimidade PDF Imprimir E-mail
Programas - Rádio Musical FM
Escrito por Silvia Geruza   
Qua, 20 de Fevereiro de 2008 15:19

Quando falamos de intimidade, precisamos primeiramente definir a que tipo de intimidade nos referimos Para alguns intimidade se refere a um sentimento de segunda categoria, sinal de fraqueza. Para outros ela representa um relacionamento privilegiado e secreto, direito dado somente a alguns eleitos e poucos, um luxo afetivo a ser conquistado pouco a pouco. Como o canto das sereias para os marinheiros de Ulisses, a intimidade suscita lânguidos desejos dos quais não gostaríamos de ser afastados. Ao mesmo tempo, para partilhar de intimidade, precisamos superar alguns medos, tais como o da fusão-confusão, o medo de ficarmos desprotegidos demais, de ficar à mercê dessa sublime e tão perigosa droga afetiva.

Intimidade segundo o Novo Dicionário do Aurélio significa trato íntimo, vida particular, indiscreto. Íntimo significa estar muito dentro, que atua no interior, entranhado, estreitamente ligado por afeição e confiança, que se passa ou efetua no interior da família ou em pessoas muito chegadas entre si. É justamente o medo de se abrir no mais profundo, privado do seu ser que muitos temem a intimidade.

A geração anterior se decepcionou com ideologias e revoluções e se voltou ao seu mundo privativo. A empolgação pelo público se voltou para o mundo das emoções, e verificou-se o fenômeno denominado “cocooning”, de volta ao casulo. Com isto, as muralhas de proteção foram levantadas pelas mais variadas razões.

A busca de intimidade ou o medo dela pode também ter nascido desde os primórdios com o relacionamento da criança com sua mãe.

Porém, uma individualidade sadia deveria basear-se numa forte autonomia individual. A pessoa pode desenvolver uma intimidade com outra, sem perder sua própria identidade, isto é, recebermos o outro dentro do nosso território íntimo sem por isso acharmos que fomos invadidos ou contaminados.

Contudo, ao falarmos de intimidade podemos também estar abordando sobre carícias íntimas, a vida sexual, psíquica ou emocional de um ser humano. Temos o sentido da intimidade intelectual, espiritual, afetiva, , corporal e sexual.

O mais importante é destacar que somos seres sociais, e por isso seres relacionais. Não tem como se esconder dentro de você mesmo e não compartilhar com outros um pouco ou muito de você, sem se ferir. Fere-se quem se tranca dentro do seu mundo interior, e pode se ferir ao se tornar vulnerável. Resta-nos escolher qual sofrimento é menos mal. Aquele que prefere permanecer no seu casulo, acaba sem amigos, sem saber se comunicar e sem se relacionar afetivamente.

INTIMIDADE MASCULINA E FEMININA

Para a mulher, falar de intimidade é muito mais fácil do que para o homem.
Ele conecta intimidade com sentimentos secundários. Afinal de contas, o homem tradicionalmente habita no mundo das idéias, da guerra, da política. A mulher no mundo dos afetos, das emoções, do privado. Para o homem, falar de intimidade significa reportar-se ao interior ou a partes íntimas, genitais. Os homens se permitem momentos de intimidade somente em circunstâncias que a justifiquem, por exemplo: num banheiro masculino, quando vão jogar e há um inimigo a derrotar, eles se permitem ver a nudez do companheiro de “guerra”. Ou, por exemplo, numa sauna ou ambiente de cura térmica se recomendado pelo médico.

Observando profundamente o caso de um homem com úlcera, ou enxaquecas constantes pode-se descobrir sintomas causados por falta de conseguir definir corretamente uma distancia íntima tanto no campo profissional, no relacionamento de casal ou no relacionamento com pessoas em geral. A intimidade também implica em ficarmos atentos às nossas sensações, e esse mundo sempre foi tido como exclusivo ao universo feminino.

O homem geralmente não gosta de se expor, principalmente se tiver uma auto-estima baixa. O que será que o outro fará com aquilo que encontrar no meu interior? Deixará de gostar de mim? Afastar-se-á de mim? Será que tenho alguma coisa boa dentro de mim para que o outro continue comigo? Estas e outras perguntas passam pelo homem (ou mulher) com baixa auto-estima que acha não ter nada de interessante para atrair o afeto de outras pessoas para si. Escondem-se no seu privado e dificultam o acesso o máximo que podem, quando notam que a intimidade está para ser estabelecida, erguem as muralhas imediatamente, e isso pode ser inconscientemente.

Talvez também a diferença de postura da mulher para com a intimidade, inclusive física, tenha a ver com a maneira natural que lidava com o tato e com os laços de ternura e afetividade com a mãe desde seu nascimento. A necessidade do homem de definir seu papel masculino distanciando-se da figura feminina da mãe, naturalmente lhe afastou de uma intimidade tátil, do tocar, do sentir. Embora, seja necessário respeitar a bissexualidade psíquica. Infelizmente, o homem para demonstrar sua virilidade, tradicionalmente, afasta-se do mundo das emoções e da afetividade, características vistas como femininas.

Se observarmos os filmes do velho Oeste americanos, que influenciaram o imaginário masculino por gerações e gerações, os caubóis são geralmente calados, independentes (com sua própria manada), têm objetivos determinados (matar os inimigos), as mulheres, meros objetos sexuais nos prostíbulos das cidades por onde passam, e sempre confiantes em si mesmo. Esses homens são fortes e determinados. No mundo deles não há lugar para os fracos e emotivos . Não que sejam desprovidos de sentimentos, mas simplesmente não os expressam.(Vide filme moderno dos irmos Cohen: Onde os Fracos não tem Vez. (um psicopata perseguindo um caubói moderno, que por sua vez é perseguido por um xerife cansado de violência. O psicopata é frio e impassível e continua sua perseguição a tudo e a todos, enquanto o xerife se aposenta. Aliás o titulo original fala muito mais sobre o filme: Não há lugar para os Velhos.) A inflexibilidade e falta de sentimentos ou emoções no psicopata são evidentes, assim como a falta de uma intimidade até mesmo consigo.

Pode ser que o coração masculino continue sendo um cofre inviolável, porém o resultado pode ser um paradoxo enquanto consegue conviver em base igualitária com a mulher, a partir do movimento feminista, onde ele consegue cozinhar, cuidar de crianças, fazer compras, porém ainda resiste a se envolver intimamente com a mulher. Porém, se estudarmos mais detalhadamente o comportamento do homem, ele exige mais intimidade do que a mulher, mas ele disfarça sua necessidade através de desejos socialmente aceitáveis. Um caso aqui e outro acolá, negociações, viagens intensas que o afastam de casa, ou somatiza através de uma dor nas costas ou uma úlcera. Em outros casos, o homem se fecha sobre si mesmo como um ouriço: não precisar de ninguém torna-se a desesperada tentativa de negar a profunda necessidade de intimidade. E, para manter as aparências, para salvaguardar uma falsa imagem de eficiência e virilidade, o homem acaba pagando um alto preço em termos de solidão, de depressão, de cada vez maiores dificuldades nos relacionamentos afetivos. Com todos os demais, mas principalmente com as mulheres.

Apesar do movimento feminista ter embaralhado os papeis, de certa maneira destruindo o conceito de papeis definidos, parece que as funções da exterioridade para o homem e a interioridade para a mulher continua até hoje profundamente arraigada e explica a grande dificuldade com que o homem consegue entrar no território da intimidade.

INTIMIDADE AFETIVA

A intimidade pressupõe a capacidade de imaginar-se na pele do outro sem perder a própria identidade. Opostamente à simbiose (pessoas grudadas sem dar espaço à outra) a intimidade necessita da manutenção de um forte sentido de individualidade: só a pessoa que tem auto-confiança consegue soltar as amarras e enfrentar o mar aberto de uma relação envolvente com o outro.

Segundo Donald Winnicott, pediatra e psicanalista inglês, as pessoas com dificuldades nos contatos pessoais são fechadas numa dura couraça que protege um núcleo central inseguro e mole. Somente quando a pessoa começa a confiar em si mesma (e isto exigiria um tratamento terapêutico) e baixa a guarda é que começa a transformar sua couraça numa membrana periférica e permeável às trocas com os outros.

Nos relacionamentos afetivos pode ser perigoso tanto ter brechas grandes demais quanto couraças. O que interessa é ter um filtro seletivo que permita selecionar as trocas. Freud menciona a casca da laranja necessária para proteger o suco interno dos raios do sol. Membranas ou casca, algum tipo de revestimento precisa existir para proteger a personalidade dos perigos internos e externos. O ideal é que o caroço (o núcleo) seja duro e a casca permeável. Nessas condições você estará preparado para se relacionar sem prejudicar sua individualidade.

E sim, você não precisa ter medo de que as pessoas não encontrem algo digno de ser querido ou amado em você. Você tem um potencial dentro de você que o outro conseguirá ver, apreciar e, afinal de contas, como seres humanos imperfeitos, precisamos aprender a apreciar a imperfeição dos outros até mesmo para que posamos aceitar nossos próprios defeitos e não exigirmos tanto dos outros quanto de nós mesmos.

 

A obtenção da intimidade afetiva é subordinada antes de mais nada à capacidade da pessoa de estar em intimidade consigo mesma. E isto significa aceitar a convivência de todas as partes de si, até daqueles das quais temos vergonha, sem esconder esqueletos nos armários ou no porão. Isto depende muito de quanto aceitamos nossas imperfeições. A intimidade consigo mesmo comporta invenção e imaginação: significa saber criar e recriar zonas de transição de conhecimento entre as várias partes de si e entre si mesmo e os outros.

 

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